- 28 de set. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 14 de out. de 2025
Ando às voltas com tempo
por Diana Salu

Ando às voltas com o tempo. E minhas mãos querem desenhar de novo. Desenhos outros que não os secretos códigos das palavras. Os maiores mistério são os que se escondem às vistas. Como as palavras. Como as mãos. Como o tempo.
Ando às voltas com o tempo. É ele quem propicia o movimento e sempre me tira do lugar, como as crianças. Tempo é uma criança que corre longas distâncias coletando objetos pelo caminho dos quais logo se desprende, se perdendo enquanto pula, brinca e dança e remexe tudo com sua bonita colher de pau. Tempo é uma criança que come de colher. Cobre tudo com sua longa capa, brilhante e opaca - uma sombra onde o olhar não consegue se fixar.

Foi observando seus movimentos que percebi que sou também criança ainda. Somos todes. Tudo que é velho é sempre novo, de novo e de novo e de novo. Não por que a matéria se (im)prima em manufaturas e a cada ano sejam outras as formas. Mas porque antes das formas existe a possibilidade de transformação da matéria.
Porque, mesmo que não acreditemos, nos movemos abaixo da utilidade. Caminhamos a esmo entre nossos planos. Tateamos o mistério da existência, a incerteza original, com as mãos firmes e certas da brincadeira.

Fazemos porque fazer é bom. Caminhamos porque caminhar é bom.
E é um passo além de engatinhar, é o espanto do nosso próprio corpo. é a terra que nos empurra de volta. É o tempo inventando suas infinitas e incansáveis histórias de criança em todas as suas repetições.
Ando às voltas com o tempo
e percebo que corre em redor da barra da minha saia / e percebo que corro em redor da barra de sua saia
e me pergunta: / e pergunto:
"a gente já chegou?" / "a gente já chegou?",
mesmo sabendo que a resposta é de novo a mesma:
"ainda não"



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