- 9 de mar.
- 3 min de leitura
ou uma cartografia de miudezas da criança Tempo
Organização de memórias editadas e rastros de leituras por Diana Salu
"Por que o discurso que define a transgeneridade como “um fenômeno novo e indocumentado” é constantemente reelaborado, posicionando as pessoas trans em um tempo que nunca é o passado?" ¹
- A gente sempre existiu né, só não haviam os nomes que hoje usamos para definir.
- Certeza que tinham outros
- Uai, amigo, a própria Joana d’Arc! Sabe?
- Que tem?
- Então, basicamente o que rolou foi que a Igreja falou “Legal você, mas para de usar cueca”, u bofe disse “Não” e aí queimaro el(a?e?u?) na fogueira
…
- No início da minha transição eu e uma amiga que também estava transicionando trocamos nossos guarda-roupas. Eu gosto de pensar no arquivo também nesse lugar, dos micro arquivos, do dia-a-dia e da vida.
...
- O lugar que a gente entra é escuro
"A transgeneridade foi discursivamente construída como um fenômeno nascente, que só agora recebe a atenção das publicações científicas e dos meios de comunicação, jamais podendo habitar o passado histórico. Esta interdição do tempo presente às pessoas trans consiste em uma negação de coetaneidade, isto é, a atribuição de um tempo diferente a essas comunidades, tomando como referência o tempo cisgênero heteronormativo branco. Esses apagamentos, silenciamentos e esquecimentos configuram processos de exclusão e marginalização macroestruturais, que atravessam a história e a memória de uma comunidade inteira.

Busquei demonstrar que, ao contrário do que se costuma pressupor, há uma abundância de fontes primárias e secundárias sobre a transgeneridade, visto que muito se produziu sobre esta temática a partir de meados do século XX, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos." ²
- Amiga, olhaaa! Achamos nossa Joana d’Arc
- Não acredito, hahahaha.
- Olha isso aqui, imagina a história desse?
- Anos 20, terno branco, cabelinho na régua. No bolso, o canivete
…

- Ei, vamos pedir pra pessoas trans objetos delas.
...
- Amiga! antes de ir, esqueci, era pra eu ter te pedido antes... Me dá um objeto seu para a nossa obra, algo do qual você possa se desapegar, mas que não seja qualquer coisa.
- Mulher, o uber já tá aqui!
- Me dê alguma coisa que tá na sua bolsa!
- Aqui!

“Talvez, de maneira semelhante às historiadoras/es das técnicas de modificação corporal, tenhamos que voltar nossos olhares para os arquivos do corpo e para as imbricações das modificações corporais nas performances de gênero. Talvez, como Michel Foucault 93 , possamos buscar essas referências nos discursos da medicina grega ou ainda, como Gayle Rubin94, busquemos nossas bases na contracultura e na cultura popular. Quem sabe, como Eduardo Galeano95, não possamos procurar nas pichações de paredes, muros e banheiros o que o povo anda dizendo. Busquemos em poemas, autobiografias, filmes, música, arte. Busquemos aquilo que se diz em toda parte, pois é aí que encontraremos o arquivo do biopoder: na vida dinâmica em sua potência transformadora." ³
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Tempo corre, brinca de correr. Cada giro seu é um desdobrar de histórias.
Carrega consigo uma capa, é preciso uma para cobrir tantas distâncias. E apesar de correr para percorrê-las todas, tempo ainda se move devagar.
Coletora de objetos dos quais logo se desprende, a criança tempo carrega tudo e não se prende a nada. Brinca e então larga por aí, logo arruma brinquedo novo.
Seguimos em seu encalço.
São nossas as arqueologias.
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¹ NEDEL, Juno. O Corpo como arquivo - tensionando questões sobre história e memória trans. Publicado em Revista Eletrônica Ventilando Acervos, Florianópolis, v. especial, n. 1, p. 16-41, jul. 2020.
² idem
³ idem





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